Geração SP(1)

                        Continuando a série de posts sobre a nova cena de São Paulo,  resolvi falar sobre dois artistas não paulistanos, bastante diferentes entre si, mas que têm em comum o fato de pertecerem à mesma gravadora, terem os discos eleitos entre os dez melhores do ano de 2009, e uma forte identidade poética e musical: a pernambucana Lulina e o paranaense Bruno Morais.
 
Lulina
 
                          Lulina começou a fazer barulho após uma série de discos caseiros, gravados com microfones de computador e instrumentos desafinados, concebidos sem a menor pretensão de serem levados a sério e, talvez por isso, foram. O convite para lançar o álbum por uma gravadora veio após a olindense – radicada em São Paulo há muitos anos – já possuir diversos admiradores, conquistados, sobretudo, pelo despojamento das canções e o surrealismo de suas letras. Temas como doenças, extras-terrestres, e minhocas, são recorrentes no trabalho da artista que, segundo amigos, é a única habitante de um planeta distante chamado “Lulilândia”.
                         Assim surgiu “Cristalina”, álbum com 18 faixas autorais que possibilitou a Lulina a oportunidade de “profissionalizar” suas canções. O resultado é delicado, confessional e surpreendente. Seu canto doce e a inventividade dos arranjos contrastam com a estranheza de versos como “treze palmos abaixo da terra/ conversando com as minhocas” ou ” sangue de E.T. tem poder” que, ao contrário do que possam sugerir, servem como alegorias para observações mordazes sobre o comportamento humano e fazem de Lulina um caso muito particular na nova produção do país.
 
 
Bruno Morais
 
                        Ao voltar do Red  Bull Music Academy – laboratório de criação mundial de música, realizado em Seattle, EUA – Bruno Morais tinha um material tão farto nas mãos que resolveu aproveitá-lo no seu trabalho seguinte, então, em fase de concepção. Convocou o produtor e amigo Guilherme Kastrup e, em meados do ano passado, veio à tona “A Vontade Superstar”, segundo álgum desse paranaense natural de Londrina, que contou com a participação de mais de 40 músicos e arranjadores de diversas nacionalidades.  

                        Bruno é um excelente cantor e o acento pop de suas composições não disfarça seu pé no samba. Não por acaso, um dos grandes charmes do disco são as releituras de “O Mundo é Assim” (Alvaiade) e “Pode sorrir” (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), dois exemplos exponenciais do que se produzia nos morros cariocas décadas atrás. Entre as canções de sua lavra, “A Vontade”, “Bombeiro Vermelho” e “Hoje vou te acordar” são as minhas preferidas. Um grande disco de um artista que merece ser descoberto.

 

Sobre Bruno Batista

Cantor, compositor, flamenguista, cervejeiro, detesta cozinhar mas não se incomoda em lavar as louças.
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