A arte da implicância

                        João Henrique é um publicitário de sucesso, graduado por uma prestigiada instituição brasileira e professor de um curso de verão na universidade francesa Pierre-et-Marie-Curie. Sua agência de propaganda detém dezenas de contratos importantes e, na última década, faturou seis vezes o “Prêmio Midas da Mídia”, concedido por uma badalada rede de bijouterias. Convive com Luciana, advogada especialista em Direito Desportivo, desde que ambos cursavam a oitava série e dividiam cachorro-quente no pátio do Colégio Marista – onde, numa certa manhã de apetite, em troca do maior pedaço de salsicha, ela o fez prometer trocar o ferrugento bugre 78 por um carro de vergonha. Só assim ela aceitaria o pedido de namoro.

                        Dois filhos e cinco mudanças de endereço depois, Joãosinho – como é conhecido nos arredores da paulistana Vila Madalena – tem apenas uma desarmonia com a esposa: sua implicância com tudo que diz respeito ao seu trabalho ou idiossincrasias. É sempre assim: basta aparecer na TV um comercial com sua assinatura para, segundos depois, soar o alarme: “Mas essa tomada, hein, quem dirigiu foi a Paris Hilton?”. Ou ainda: “Nossa, quem foi a produtora de casting? Esse ator parece uma couve-flor estragada”.

                         Apesar de desagradável, o hábito, alimentado pela esposa com tanta diligência, seria francamente esquecido não fosse a completa falta de respeito que Luciana demonstra por outra – esta, sim, muito mais valiosa e preeminente – questão na vida de João: sua coleção de quadrinhos Tex. Durante as longas viagens para assinatura de contratos de jogadores de futebol, o único pedido que a advogada recebe do marido é algum exemplar das aventuras do cowboy. Ultimamente, devido às sucessivas frustrações, nem mais se dava ao trabalho de escolher: aceitava mesmo uma revista repetida, um recorte de jornal, um chaveirinho qualquer, desde que percebesse na esposa alguma deferência pela sua paixão. Não só Luciana jamais trouxe um mísero folheto como, dias atrás, ameaçou se livrar de pelos menos duas estantes de gibis para abrir espaço para um aparelho de ginástica 4 em 1 comprado à vista no Shoptime. Com o seu cartão de crédito, claro.

                        Inebriado pela amargura, o que João parece não perceber é que a implicância, como pode atestar qualquer roteirista de Hollywwod, é a melhor medida de quem ama. Mais que o ciúme, tesão, horas gastas no telefone ou presentes de viagem para o pessoal do escritório. A implicância repousa solene, além do amor. Cristo, por exemplo, disse: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amo” porque conhecia os limites da alma humana. Nós podemos amar tão bem um desconhecido (aquela garçonete do japonês da esquina, um cantor de bolero, um candidato populista) e facilmente somos suscetíveis à caridade e à compaixão. Mas a implicância é um sentimento mais vigoroso e profundo. É a arte da constância.

                        Para o bom implicante é necessário estar presente, vivenciar o dia-a-dia, desbravar a natureza do outro. Implicar requer companheirismo. Também é indispensável estar à espreita, ter faro de oportunidade, precisão. Implicar requer paciência. Claro que é fundamental ter proximidade, ascendência, saber ouvir e ser relevante ao falar. Implicar, para melhor efeito, requer intimidade. Mas, no fim das contas, o que mais conta é a parcialidade, a admiração, a observância. Porque implicância é, antes de tudo, reconhecimento. É a admissão do outro tal como ele é, e, mais urgentemente, como uma de nossas partes. Não por acaso mães implicam com filhos, filhos implicam com irmãos, irmãos com amigos, amigos com esposas, esposas com maridos que implicam… com suas mães (e um pouco com as mães delas também). E nessa eterna ciranda de crises e ressentimentos, o que resta são as horas de silêncio e perdão quando, enfim, percebemos que as desanvenças são, na verdade, a enxada que remexe a terra para o amor florescer.

                        Por isso, João, o melhor a fazer é ir para casa e escolher com calma um bom disco da Aretha Franklin. Quando Luciana chegar, pode recebê-la com um beijo ou uma taça de Koyle Royale. Escolha o que causar melhor efeito. E, depois de revisitar o seu dia e destilar saudades, você irá confessar, enquanto dançam de rosto colado, que, hoje pela manhã, assim que ela saiu com as crianças, você incendiou aquela fantasia da Barbarela que ela guardava desde o primeiro baile da escola. Ela vai deixar a taça cair, levar as mãos à nuca e, num grito incontido de desespero e incredulidade, fará, enfim, a pergunta fatal: “Mas por quê?” Você, impassível como só enamorados incendiários conseguem ser, responderá docemente: “Por que hoje, meu amor, é a minha vez de demonstrar o quanto eu amo você!”.

 

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Sobre Bruno Batista

Cantor, compositor, flamenguista, cervejeiro, detesta cozinhar mas não se incomoda em lavar as louças.
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5 respostas para A arte da implicância

  1. Dani disse:

    Perfeito texto! é a mais pura verdade. Enquanto lia ia pensando na infinidade de coisas com a qual implico com meu marido e percebi que nem são tantas assim, a implicância maior é com a banda que ele diz ter mas que na realidade não existe. Ah, tem também a coleção de tênis que pra mim são praticamente iguais, indepentende da marca e de quanto custaram. Ele implica com meus esmaltes, com a minha mania de pintar unha e depois tirar o esmalte roendo tudo. Mas no fim a gente ri e acaba dizendo: “é até que esse tênis é diferente daquele último” ou “esse esmalte até que tá resistindo na unha né?”
    Beijo Bruno!

  2. Lena Machado disse:

    Bruno querido,
    Passei e-mail prá vc e retornou (?). Confere aí como ficou Acontecesse no show de lançamento que fiz em julho no vídeo postado no youtube. No link:

    Bjão pra vc.
    Lena Machado

  3. Felipe disse:

    Rapaz foi difícil te achar! Queria te mandar uma demo minha pra ver o que você acha. Posso cometer o obséquio? heheh
    abs

  4. Mariana Batista disse:

    Bruninho dessa vez você se superou.. texto perfeito! bjo

  5. Danielle Nogueira disse:

    Melhor texto que li sobre o assunto. Parabéns!

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