Fazendo amigos no açougue

                        Na esquina do meu prédio tem um açougue. Não sei se é o melhor da região, o que serve os melhores cortes, as carnes mais nobres ou o açougueiro mais simpático. Mas, certamente, é o mais badalado. Pensando bem, deve ser o pior da região. Pelo menos uma vez por semana eu saio de casa, cumprimento uma senhorinha muito afável que vive na calçada, contorno a farmácia, disparo um olhar libidinoso para os bolinhos de café da padaria e, dali mesmo, diviso a inacreditável fila que se forma entre o supermercado e um quiosque de comida japonesa. É lá que desperdiçarei a próxima hora sobrevivendo ao cheiro de miúdos de carneiro, mexericos da vizinhança e ao impulso irresistível de roubar a maldita faca de cabo branco e ser capa da edição seguinte do Meia Hora com o título: “Carne humana vira artigo de luxo em açougue de Copacabana”.

                          No início, para domar a ansiedade, costumava levar meu iPod atulhado de álbuns do João Gilberto para, entre um “Bim Bom” e outro, me imaginar no Carnegie Hall elevado pelo violão do mestre. Não deu muito certo. Por lá circula Sandoval, um orgulhoso ambulante pernambucano que demonstra toda sua devoção através de uma bata estampada com a bandeira do Náutico e uma diabólica caixinha de som que dispara frevos com tamanha potência, que o próprio Ariano Suassuna teve que se levantar da cadeira de balanço lá no Recife para intervir: “Dos quatro cantos cheguei e todo mundo chegou pra te mandar desligar essa porra, Sandoval”!

                         Alguns meses depois, contaminado pelo vírus TVB (Twitter via Blackberry), resolvi comprar um aparelinho e aproveitar o tempo gasto no açougue lendo recadinhos da Revista Péssima e, claro, twittando os mais escabrosos desaforos contra aquela birosca. Para meu assombro, certa tarde um crioulo de 1,91m, usando terno branco e sapatos alaranjados, solicitou-me gentilmente uma conversa ao pé do ouvido. “É você que anda achincalhando o nosso estabelecimento na internet ? (Pausa para engolir seco). O mundo tá ao contrário e só eu não reparei. Nunca imaginei que o açougue da esquina tivesse twitter. E o pior. Ele me seguia. Restou-me apenas assumir minha covardia e correr para casa para fechar a conta daquela porcaria de invenção dedo-duro. Passei uma semana frequetando restaurantes vegetarianos.

                         Foi nesses dias que, enfastiado de tanta lasanha de beringela e espetinhos de cenoura, desenvolvi uma nova estratégia (“Seu 05, tenha a bondade”). Passei a chegar no final da tarde, quando a clientela é mais heterogênia, e observar os tipos que compunham aquele universo tão fascinante. O passatempo consistia em decifrar a personalidade de cada um a partir da variedade e quantidade das carnes que procuravam. Assim, despido das vestes da intolerância, comecei a me divertir imaginando, por exemplo, que aquela distinta senhora de cabelos vermelhos e andar vacilante, com 3 kg de filé mignon no balcão, deveria ter sido uma jovem roqueira nos anos 70, adepta do amor livre e que, de tanto usar LSD, ficou sequelada e se transformou numa péssima dona de casa. Muito criticada pelo marido e pelo filho mais velho, resolveu fazer uma surpresa e provar que ela podia, sim, dar conta de um delicioso filé ao molho de cogumelos no jantar. Restava saber, apenas, que cogumelos eram esses.

                         Também passava por lá um desses garotões típicos de cidades praianas, bermudas largas, camiseta no ombro, e uma prancha quebrada debaixo do braço. Provavelmente era fã do Franz Ferdinand, frequentador de rodas de samba em Madureira, bom no pôquer, mas que perdeu a namorada pro melhor amigo porque não contava que ele tivesse uma sequência de Ás na mão. Ele comprou somente meio-quilo de linguiça, o que, de fato, corroborava a tese. Isso sem falar na minha vizinha, uma loira espetacular que nunca suspeitei que frequentasse aquele ambiente. Ela solicitou uma dica pro açougueiro para comemorar seis anos de casamento. Queria preparar alguma coisa bem especial. Confesso que minha cabeça entrou em torpor, a imaginação não foi suficiente e tive que recorrer ao velho copo na parede pra dar conta do que se passou no apartamento ao lado naquela noite.

                          E assim as insuportáveis idas ao açougue se transformaram em grande atração. O segurança especialista em moda virou meu amigo, sempre discuto com o Sandoval sobre futebol (ele garante que próximo ano nos enfretaremos na segunda divisão) e até passei uma receita de carneiro ao leite de côco para o velhinho do caixa. Nunca deixei de observar o pedido dos clientes, mas acho que tamanho exercício de criativiade não anda me fazendo bem. De acordo com o porteiro, minha vizinha pediu o divórcio. Outro dia ela passou pelo açougue apenas para amolar uma faca. Logo depois, quis conselhos sobre o preparo de um coração ao molho pardo. E, por fim, estava interessada em adquirir um freezer com capacidade para 240 litros. Minha espinha ficou gelada, não pude conter a imaginação, claro, mas quanta preocupação à toa. Pobre mulher. Tá na cara. Ela não pode nem cozinhar um javali em paz?

Sobre Bruno Batista

Cantor, compositor, flamenguista, cervejeiro, detesta cozinhar mas não se incomoda em lavar as louças.
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4 respostas para Fazendo amigos no açougue

  1. Mae Soares disse:

    Muito bom!
    Fiquei curiosa pra saber como seria “fazendo amigos no Bip”.
    (Medo)

  2. Pedro Evil disse:

    Ae Brunão, muito massa o blog, engraçado como tu fala do cotidiano, de uma forma mais criativa de ver as pessoas, estabelecimentos, vou vir aqui sempre que lembrar!

    Abrazzz!

  3. Milla Camões disse:

    Precisava rir hj… e sua crônica me proporcionou momentos maravilhosos, definitivamente.
    Saudade,
    Cheiro!

  4. Olá Bruno teu Blog bem legal, sou de São Luis, e pesquisando sobre seu álbum novo cheguei aqui, as crônicas são bem interessantes através da tua ótica,.

    Abraço!

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