Dicionário de Humor Infantil – Uma lembrança

Eu contava nove anos. Percebendo meu interesse por leitura,  meus pais me apresentaram a um livro sem se darem conta, talvez, de que estavam desencadeando uma obsessão, a primeira epifania do engenho da palavra.  A descoberta da poesia – como se lá eu soubesse o que isso significava . Assim como mal sabiam todas aquelas crianças que ajudaram a escrever o “Dicionário de Humor Infantil”, compilação de pérolas ditas por sabichões de 03 a 11 anos e reunidas pelo escritor e pediatra Pedro Bloch. Ontem à noite, desprevenido, lembrei deste episódio.  E do livro. E compreendi  um tanto melhor porque o grande poeta Manoel de Barros, por vezes, recorria a frases ditas pelo filho, ainda criança, em seus trabalhos: há coisas que apenas o universo infantil consegue desvendar. Eis aqui algumas delas.

ABOLIÇÃO: Uma coisa assinada pela escrava Isaura.

ABSTRATO: Sim, eu sei o que é abstrato. Esta sopa, por exemplo, leva abstrato de tomate.

ADULTO – É uma pessoa que sabe tudo, mas quando não sabe diz logo: “veja na enciclopédia”.

ALEGRIA – É um palhaçinho no coração da gente.

AMAR – É pensar no outro, mesmo quando a gente nem tá pensando.

ARCO-ÍRIS – É uma ponte de vento colorido.

BEBÊ: É uma coisa que ainda tem a cabeça verde. Não funciona como a gente.

BOBO: É uma pessoa cheia de coisas vazias.

BOCA – É a garagem da língua.

BONITA – “Se eu sou bonita ou inteligente? Se eu sou bonita, você vê na cara. E se eu sou inteligente, nem respondo a uma pergunta boba dessas”.

BRUXA – É uma fada que ficou velha e perdeu a dentadura.

CABELO – É uma coisa que serve pra gente não ficar careca.

CALCANHAR – É o queixo do pé.

CHOCOLATE – É uma coisa que a gente nunca oferece aos amigos porque eles aceitam.

CINEMA: É um lugar onde a gente come pipoca.

COBRA – É um bicho que só tem rabo.

CORAÇÃO – A professora diz que “não ter bom coração” é ser mau. E “não ter fígado”, o que é?

CRIANÇA – Ser criança é não estragar a vida.

DEUS – Um dia eu disse que Deus era muito distraído e todo mundo riu. Só não sei a graça que isso tem.

DIA: Hoje é amanhã de ontem.

DISTÂNCIA – A Europa fica mais longe que a Lua. A Lua eu vejo.

ELÉTRONS – São os micróbios da eletricidade.

ENGRAÇADO – É o meu boletim do mês passado, porque o deste mês não tem graça nenhuma.

ESCURO – Tenho mais medo de avião que de escuro. É que escuro não voa, nem cai.

ESPERANÇA – É um pedaço da gente que sabe que vai dar certo.

ESTUDIOSO: Ser estudioso é pensar pouco e decorar muito.

FÁCIL E DIFÍCIL – Fácil é tomar sorvete. Difícil é comer espinafre.

FÉ – É uma menininha, na praia, esvaziando o mar com um baldezinho de plástico furado.

FELICIDADE – É peixinho comer isca sem se machucar no anzol.

FUTEBOL – É um jogo em que, às vezes, a trave joga melhor que o goleiro. Pega tudo.

FUTURO – É tudo que vem depois e, quando chega, já era.

GÊMEAS: Eu vi duas meninas de cara repetida.

HONESTIDADE – É assim: eu acho mil reais. Aí eu devolvo ao dono quinhentos reais e fico com quinhentos, pra pagar minha honestidade.

HORA: A melhor hora da minha escola é a hora da saída.

ILHA: É um morro que caiu dentro do mar.

INFERNO – É um lugar onde a gente morre muito mais.

JARDIM ZOOLÓGICO – O bicho que eu mais gostei, no jardim zoológico, foi o vendedor de sorvete.

JUÍZO: É fazer tudo o que mamãe acha que tá certo, mesmo quando está errado.

LEQUE: É um espanador de ventinho.

LÓGICA – Uma nota de dez rasgada no meio não dá duas de cinco, dá?

MÃE – Quando você era menina, quem era minha mãe?

MENTIRA – (ouve-se o estraçalhar de um vidro no banheiro e o menino grita) – “É mentira do barulho!”

MISTÉRIO – É uma coisa que a gente não sabe explicar direito e, quando explica, já não é.

NAMORADO – É uma pessoa que tem medo do claro.

NEVOEIRO – É poeira do frio.

NOITE: É o dia com luz apagada.

ORGULHO – É anão pensar que é gigante e lagartixa pensar que é crocodilo.

OVO: Dizem que Colombo botou um ovo em pé. Eu não boto nem sentado.

PACIÊNCIA – É uma coisa que mamãe perde sempre.

PAI – Ser pai é mais difícil que ser mãe. Pai precisa usar gravata.

PIADA – É uma coisa engraçada que perde a graça quando a pessoa avisa que vai ser.

POLUIÇÃO – É sujeira do progresso.

PSICÓLOGA – Mamãe me mandou pra psicóloga e, depois da minha sessão, eu acho que a psicóloga melhorou.

QUANDO PUDER: É muito tarde.

RAÇA – Esse negócio de raça não tá com nada. Me contaram que, na África do Sul, numa igreja, o negro ajoelhado só podia lavar o chão. Rezar não podia. Esses brancos deviam ter vergonha de rezar. Nem ia adiantar. Deus nem tava lá.

REDE – É uma porção de buracos amarrados com barbante.

REFLEXO – É quando a água do lago se veste de árvores.

RELÂMPAGO – É um barulho rabiscando o céu.

ROBÔ: É um monte de peças e computadores que pensam que viraram gente.

SAUDADE – É quando uma pessoa que devia estar perto está longe.

SOL: Eu não errei na prova. Só disse que o Sol nasce no nascente e dorme no dormente.

SONO – É saudade de dormir.

SORTE – É a gente acordar, se preparar pra ir pra escola e descobrir que é feriado nacional.

STRIP-TEASE – É mulher tirando a roupa toda, na frente de todo mundo, sem ser pra tomar banho.

TAMANDUÁ: É um bicho todo desarrumado. Até formiga ele come.

TRISTEZA – É uma criança com gesso no pé, sem assinatura.

VEIAS – São raízes que aparecem no pescoço das meninas que gritam.

VIDA – A vida a gente não explica. Vive.

VIDA – A vida de muita gente é só gol contra.

VOCAÇÃO- É a voz do papai.

W: São dois vês que nasceram gêmeos.

XINGAR – Quando eu xingo a minha avó, só xingo a metade que é do meu irmão.

Y: É uma letra parecida com um estilingue, que é intrometida.

ZEBRA: Um burro que nasceu com listras, coitado.

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Fazendo amigos no açougue

                        Na esquina do meu prédio tem um açougue. Não sei se é o melhor da região, o que serve os melhores cortes, as carnes mais nobres ou o açougueiro mais simpático. Mas, certamente, é o mais badalado. Pensando bem, deve ser o pior da região. Pelo menos uma vez por semana eu saio de casa, cumprimento uma senhorinha muito afável que vive na calçada, contorno a farmácia, disparo um olhar libidinoso para os bolinhos de café da padaria e, dali mesmo, diviso a inacreditável fila que se forma entre o supermercado e um quiosque de comida japonesa. É lá que desperdiçarei a próxima hora sobrevivendo ao cheiro de miúdos de carneiro, mexericos da vizinhança e ao impulso irresistível de roubar a maldita faca de cabo branco e ser capa da edição seguinte do Meia Hora com o título: “Carne humana vira artigo de luxo em açougue de Copacabana”.

                          No início, para domar a ansiedade, costumava levar meu iPod atulhado de álbuns do João Gilberto para, entre um “Bim Bom” e outro, me imaginar no Carnegie Hall elevado pelo violão do mestre. Não deu muito certo. Por lá circula Sandoval, um orgulhoso ambulante pernambucano que demonstra toda sua devoção através de uma bata estampada com a bandeira do Náutico e uma diabólica caixinha de som que dispara frevos com tamanha potência, que o próprio Ariano Suassuna teve que se levantar da cadeira de balanço lá no Recife para intervir: “Dos quatro cantos cheguei e todo mundo chegou pra te mandar desligar essa porra, Sandoval”!

                         Alguns meses depois, contaminado pelo vírus TVB (Twitter via Blackberry), resolvi comprar um aparelinho e aproveitar o tempo gasto no açougue lendo recadinhos da Revista Péssima e, claro, twittando os mais escabrosos desaforos contra aquela birosca. Para meu assombro, certa tarde um crioulo de 1,91m, usando terno branco e sapatos alaranjados, solicitou-me gentilmente uma conversa ao pé do ouvido. “É você que anda achincalhando o nosso estabelecimento na internet ? (Pausa para engolir seco). O mundo tá ao contrário e só eu não reparei. Nunca imaginei que o açougue da esquina tivesse twitter. E o pior. Ele me seguia. Restou-me apenas assumir minha covardia e correr para casa para fechar a conta daquela porcaria de invenção dedo-duro. Passei uma semana frequetando restaurantes vegetarianos.

                         Foi nesses dias que, enfastiado de tanta lasanha de beringela e espetinhos de cenoura, desenvolvi uma nova estratégia (“Seu 05, tenha a bondade”). Passei a chegar no final da tarde, quando a clientela é mais heterogênia, e observar os tipos que compunham aquele universo tão fascinante. O passatempo consistia em decifrar a personalidade de cada um a partir da variedade e quantidade das carnes que procuravam. Assim, despido das vestes da intolerância, comecei a me divertir imaginando, por exemplo, que aquela distinta senhora de cabelos vermelhos e andar vacilante, com 3 kg de filé mignon no balcão, deveria ter sido uma jovem roqueira nos anos 70, adepta do amor livre e que, de tanto usar LSD, ficou sequelada e se transformou numa péssima dona de casa. Muito criticada pelo marido e pelo filho mais velho, resolveu fazer uma surpresa e provar que ela podia, sim, dar conta de um delicioso filé ao molho de cogumelos no jantar. Restava saber, apenas, que cogumelos eram esses.

                         Também passava por lá um desses garotões típicos de cidades praianas, bermudas largas, camiseta no ombro, e uma prancha quebrada debaixo do braço. Provavelmente era fã do Franz Ferdinand, frequentador de rodas de samba em Madureira, bom no pôquer, mas que perdeu a namorada pro melhor amigo porque não contava que ele tivesse uma sequência de Ás na mão. Ele comprou somente meio-quilo de linguiça, o que, de fato, corroborava a tese. Isso sem falar na minha vizinha, uma loira espetacular que nunca suspeitei que frequentasse aquele ambiente. Ela solicitou uma dica pro açougueiro para comemorar seis anos de casamento. Queria preparar alguma coisa bem especial. Confesso que minha cabeça entrou em torpor, a imaginação não foi suficiente e tive que recorrer ao velho copo na parede pra dar conta do que se passou no apartamento ao lado naquela noite.

                          E assim as insuportáveis idas ao açougue se transformaram em grande atração. O segurança especialista em moda virou meu amigo, sempre discuto com o Sandoval sobre futebol (ele garante que próximo ano nos enfretaremos na segunda divisão) e até passei uma receita de carneiro ao leite de côco para o velhinho do caixa. Nunca deixei de observar o pedido dos clientes, mas acho que tamanho exercício de criativiade não anda me fazendo bem. De acordo com o porteiro, minha vizinha pediu o divórcio. Outro dia ela passou pelo açougue apenas para amolar uma faca. Logo depois, quis conselhos sobre o preparo de um coração ao molho pardo. E, por fim, estava interessada em adquirir um freezer com capacidade para 240 litros. Minha espinha ficou gelada, não pude conter a imaginação, claro, mas quanta preocupação à toa. Pobre mulher. Tá na cara. Ela não pode nem cozinhar um javali em paz?

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A arte da implicância

                        João Henrique é um publicitário de sucesso, graduado por uma prestigiada instituição brasileira e professor de um curso de verão na universidade francesa Pierre-et-Marie-Curie. Sua agência de propaganda detém dezenas de contratos importantes e, na última década, faturou seis vezes o “Prêmio Midas da Mídia”, concedido por uma badalada rede de bijouterias. Convive com Luciana, advogada especialista em Direito Desportivo, desde que ambos cursavam a oitava série e dividiam cachorro-quente no pátio do Colégio Marista – onde, numa certa manhã de apetite, em troca do maior pedaço de salsicha, ela o fez prometer trocar o ferrugento bugre 78 por um carro de vergonha. Só assim ela aceitaria o pedido de namoro.

                        Dois filhos e cinco mudanças de endereço depois, Joãosinho – como é conhecido nos arredores da paulistana Vila Madalena – tem apenas uma desarmonia com a esposa: sua implicância com tudo que diz respeito ao seu trabalho ou idiossincrasias. É sempre assim: basta aparecer na TV um comercial com sua assinatura para, segundos depois, soar o alarme: “Mas essa tomada, hein, quem dirigiu foi a Paris Hilton?”. Ou ainda: “Nossa, quem foi a produtora de casting? Esse ator parece uma couve-flor estragada”.

                         Apesar de desagradável, o hábito, alimentado pela esposa com tanta diligência, seria francamente esquecido não fosse a completa falta de respeito que Luciana demonstra por outra – esta, sim, muito mais valiosa e preeminente – questão na vida de João: sua coleção de quadrinhos Tex. Durante as longas viagens para assinatura de contratos de jogadores de futebol, o único pedido que a advogada recebe do marido é algum exemplar das aventuras do cowboy. Ultimamente, devido às sucessivas frustrações, nem mais se dava ao trabalho de escolher: aceitava mesmo uma revista repetida, um recorte de jornal, um chaveirinho qualquer, desde que percebesse na esposa alguma deferência pela sua paixão. Não só Luciana jamais trouxe um mísero folheto como, dias atrás, ameaçou se livrar de pelos menos duas estantes de gibis para abrir espaço para um aparelho de ginástica 4 em 1 comprado à vista no Shoptime. Com o seu cartão de crédito, claro.

                        Inebriado pela amargura, o que João parece não perceber é que a implicância, como pode atestar qualquer roteirista de Hollywwod, é a melhor medida de quem ama. Mais que o ciúme, tesão, horas gastas no telefone ou presentes de viagem para o pessoal do escritório. A implicância repousa solene, além do amor. Cristo, por exemplo, disse: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amo” porque conhecia os limites da alma humana. Nós podemos amar tão bem um desconhecido (aquela garçonete do japonês da esquina, um cantor de bolero, um candidato populista) e facilmente somos suscetíveis à caridade e à compaixão. Mas a implicância é um sentimento mais vigoroso e profundo. É a arte da constância.

                        Para o bom implicante é necessário estar presente, vivenciar o dia-a-dia, desbravar a natureza do outro. Implicar requer companheirismo. Também é indispensável estar à espreita, ter faro de oportunidade, precisão. Implicar requer paciência. Claro que é fundamental ter proximidade, ascendência, saber ouvir e ser relevante ao falar. Implicar, para melhor efeito, requer intimidade. Mas, no fim das contas, o que mais conta é a parcialidade, a admiração, a observância. Porque implicância é, antes de tudo, reconhecimento. É a admissão do outro tal como ele é, e, mais urgentemente, como uma de nossas partes. Não por acaso mães implicam com filhos, filhos implicam com irmãos, irmãos com amigos, amigos com esposas, esposas com maridos que implicam… com suas mães (e um pouco com as mães delas também). E nessa eterna ciranda de crises e ressentimentos, o que resta são as horas de silêncio e perdão quando, enfim, percebemos que as desanvenças são, na verdade, a enxada que remexe a terra para o amor florescer.

                        Por isso, João, o melhor a fazer é ir para casa e escolher com calma um bom disco da Aretha Franklin. Quando Luciana chegar, pode recebê-la com um beijo ou uma taça de Koyle Royale. Escolha o que causar melhor efeito. E, depois de revisitar o seu dia e destilar saudades, você irá confessar, enquanto dançam de rosto colado, que, hoje pela manhã, assim que ela saiu com as crianças, você incendiou aquela fantasia da Barbarela que ela guardava desde o primeiro baile da escola. Ela vai deixar a taça cair, levar as mãos à nuca e, num grito incontido de desespero e incredulidade, fará, enfim, a pergunta fatal: “Mas por quê?” Você, impassível como só enamorados incendiários conseguem ser, responderá docemente: “Por que hoje, meu amor, é a minha vez de demonstrar o quanto eu amo você!”.

 

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Geração SP(1)

                        Continuando a série de posts sobre a nova cena de São Paulo,  resolvi falar sobre dois artistas não paulistanos, bastante diferentes entre si, mas que têm em comum o fato de pertecerem à mesma gravadora, terem os discos eleitos entre os dez melhores do ano de 2009, e uma forte identidade poética e musical: a pernambucana Lulina e o paranaense Bruno Morais.
 
Lulina
 
                          Lulina começou a fazer barulho após uma série de discos caseiros, gravados com microfones de computador e instrumentos desafinados, concebidos sem a menor pretensão de serem levados a sério e, talvez por isso, foram. O convite para lançar o álbum por uma gravadora veio após a olindense – radicada em São Paulo há muitos anos – já possuir diversos admiradores, conquistados, sobretudo, pelo despojamento das canções e o surrealismo de suas letras. Temas como doenças, extras-terrestres, e minhocas, são recorrentes no trabalho da artista que, segundo amigos, é a única habitante de um planeta distante chamado “Lulilândia”.
                         Assim surgiu “Cristalina”, álbum com 18 faixas autorais que possibilitou a Lulina a oportunidade de “profissionalizar” suas canções. O resultado é delicado, confessional e surpreendente. Seu canto doce e a inventividade dos arranjos contrastam com a estranheza de versos como “treze palmos abaixo da terra/ conversando com as minhocas” ou ” sangue de E.T. tem poder” que, ao contrário do que possam sugerir, servem como alegorias para observações mordazes sobre o comportamento humano e fazem de Lulina um caso muito particular na nova produção do país.
 
 
Bruno Morais
 
                        Ao voltar do Red  Bull Music Academy – laboratório de criação mundial de música, realizado em Seattle, EUA – Bruno Morais tinha um material tão farto nas mãos que resolveu aproveitá-lo no seu trabalho seguinte, então, em fase de concepção. Convocou o produtor e amigo Guilherme Kastrup e, em meados do ano passado, veio à tona “A Vontade Superstar”, segundo álgum desse paranaense natural de Londrina, que contou com a participação de mais de 40 músicos e arranjadores de diversas nacionalidades.  

                        Bruno é um excelente cantor e o acento pop de suas composições não disfarça seu pé no samba. Não por acaso, um dos grandes charmes do disco são as releituras de “O Mundo é Assim” (Alvaiade) e “Pode sorrir” (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), dois exemplos exponenciais do que se produzia nos morros cariocas décadas atrás. Entre as canções de sua lavra, “A Vontade”, “Bombeiro Vermelho” e “Hoje vou te acordar” são as minhas preferidas. Um grande disco de um artista que merece ser descoberto.

 
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Geração SP

                         A atual cena musical paulistana é, com larga vantagem, a mais pulsante do país. Nos bares e casas da Vila Madalena, Pompéia e Rua Augusta, com o testemunho de um público jovem e ávido por boa música, acontecem alguns dos melhores momentos de uma geração – não só de São Paulo – que desponta com muita identidade e  coragem de quem sabe chegar.
                         São cantores, cantoras, compositoras e compositores, uma infinidade de instrumentistas que, talvez se valendo do fato de estarem no maior pólo de recepção cultural do país, souberam condensar toda essa efervescência e transformar, como em nenhuma outra parte, em música.
                          Pensando nisso, resolvir escrever uma série de cinco posts com dez artistas bastante significativos dessa geração.  Como a safra atual é das mais generosas em qualidade e quantidade, o único critério observado  foi meu gosto pessoal e o limite de dois discos lançados. De qualquer forma, acho que ela está bem representada. Aqui vai um pouquinho do novo perfil da música que anda fazendo a cabeça da paulicéia.
 
Marcelo Jeneci
                         Marcelo Jeneci tem 28 anos e um vasto currículo como músico e compositor. Iniciou a carreira aos dezessete, quando passou a integrar a banda de Chico César e, desde então, não mais parou de colaborar com grandes expoentes da música brasileira como Elza Soares, Arnaldo Antunes, José Miguel Wisnik, Zélia Duncan e Vanessa da Mata. Com Vanessa, inclusive, foi responsável pelo grande tema de novelas de 2008 com a canção “Amado”, de “A Favorita”. Também pôde ser ouvido nos folhetins globais na voz de Leonardo com a bela canção “Longe”, na qual divide a autoria com Arnaldo Antunes.
                       Porém, o talento desse paulistano de lindas melodias – que tem no piano e acordeon sua grande força de expressão – poderá ser melhor descoberto ainda este semestre, quando deverá ser lançado seu primeiro trabalho solo. O repertório? Eu desconheço. Mas, desconfio, esta canção deve estar:
 
Juliana Kehl
                         Da nova geração de São Paulo, um dos mais consistentes debut de 2010 foi o de Juliana Kehl. Cantora e compositora de grande sensibilidade, Juliana lançou um belíssimo álbum no qual assina dez, das doze faixas. É um trabalho requintado, no qual contemporaneidade e tradição caminham ladeadas  o que, por si só, já é um grande feito.
                        Além da estética bem apurada, Juliana demonstra um canto seguro, desafetado, extraindo da voz exatamente o que a canção requer. A prova disso é a interpretação de “Outras Mulheres” (Joyce/Paulo César Pinheiro) na qual a personagem – promíscua e de espírito livre – ganha novos ares de ternura e compreensão. Como compositora, revela delicadeza e inteligência, em canções que emocionam e nos fazem embarcar na alma dessa paulistana que, no compasso de sua “Rede de Varanda” , sabe embalar.
 
 
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Vinte canções para viver e morrer de amor

                   “O amor quando acontece…”, já dizia Abel Silva em uma das mais belas obras do cancioneiro brasileiro, é como música nos escombros de New Orleans, Zico na diretoria do Flamengo ou Flávio Dino candidato ao governo do Maranhão: renovam-se as esperanças e “…a gente esquece logo que sofreu um dia”. Toda manhã parece ser de carnaval, toda cidade parece ser Roma, toda bebida, Jack Daniel’s, e é como se vivêssemos eternamente em um poema de Cesar Vallejo.

                    No entanto, como bem sabem os marinheiros e os terapeutas comportamentais, o amor é um rio tormentoso e em seu curso há lodo e relva além da água cristalina. A conquista, não por acaso, é sua doce nascente. A paixão, os primeiros conflitos e as horas de trégua, formam o leito, e a separação – preguiçosa e agônica – seu morredouro. No entanto, como para cada curso d’água deste mundo mil canções são feitas – e tantas canções foram feitas para o amor – cabe uma pergunta: qual seria a trilha sonora desta eterna travessia?

                   Muito embora seja uma questão, por natureza, insolúvel, resolvi enumerar vinte canções brasileiras que embalariam bem um romance. Distribuidas em quatro momentos – de acordo com a intensidade do amor (ou da corrente de água) – compartilho agora com vocês. Faço apenas duas observações: aos que encontram-se nas fases 1 ou 2, por favor, tirem as crianças da sala e ouçam tudo no volume máximo. Acreditem, vale à pena. Já aos que travam os penosos momentos das fases 3 ou 4, uma súplica: desfaçam-se das armas e suspendam os destilados. A todos uma boa viagem!

Fase 1: Nascente ou “Foi no instante em que te vi”
            
                          Em seu penúltimo disco a mineira Ceumar gravou uma pérola do repertório de Dante Ozetti e Luis Tatit chamada Achou. Os versos “Como estou com muito amor pra dar, eu dou/ Quem estiver atrás de um grande amor, achou” são de uma entrega comovente. Uma outra opção é a delicada Doralinda, (Cazuza) que promete “Eu queria te dar a lua, só que pintada de verde,…e as estrelas de uma árvore de Natal”. Há ainda a previdente Foi no mês que vem, de Vitor Ramil, que assegura “Que seja antes minha que de outrem”e, para os mais incisivos, as auto-explicativas Eu tenho uma camiseta escrita Eu te Amo, de Wander Wildner e Um dia desses eu me caso com você, (Paulo Diniz/Torquato Neto), parecem ter sido feitas sob encomenda.
 
Fase 2: Primeira Margem ou “De tanto imaginar loucuras”

                  Quando Rita Lee e Roberto de Carvalho escreveram Mania de Você talvez não se dessem conta de que realizavam uma das mais vibrantes declarações de amor da música brasileira. O verso “Meu bem você me dá água na boca” é uma espécie de sacramento para os casais apaixonados. Há, no entanto, os mais reverentes, como o gênio Elomar que escreveu em Cantada: “Amada…nesta madrugada somos apenas mistérios de Deus”. Ou a singeleza de Arnaldo Antunes que, em O seu olhar, garante: “O seu olhar melhora o meu”; e Vitor Martins em Doce Presença: “Agora sei que somos iguais/ E, se duvidares, tem as minhas digitais”. Em todo caso, sempre alguém pode preferir a revelação pela voz de Magal e gritar: O meu sangue ferve por você.

Fase 3: Segunda Margem ou “Não demora eu tô de volta, tchau”.

                   Sim, o amor começou a ruir, as personalidades entraram em conflito e Vanessa da Mata acertou em cheio quando extravasou: Você vai me destruir. Se você sente-se sufocado pela onipresença da sua parceira (o), conforte-se: Lenine, quando escreveu Hoje eu quero sair só, também passava por isso. Há ainda problemas graves de relacionamentos que Biafra, em Mundos Diferentes, e a dupla João Bosco e Aldir Blanc, em Incompatibilidade de Gênios, trataram tão bem. Em último caso, quando a vingança passa a ser opção, Isso não vai ficar assim, meu bem, de Itamar Assumpção, é um chute na veia.

Fase 4. Foz ou “Não volte nunca mais pra mim”

                   Ah, mestre Cartola, se eu pudesse escrever Acontece. Que obra-prima! Chico Buarque não fica por menos em Trocando em Miúdos, nem o rei Roberto em Do fundo do meu coração. Mas, se fosse para dar o beijo fatal, ficaria mesmo com Alvin L em Eu nunca te amei, idiota, ou Rogério Skylab com O primeiro tapa é meu. Uma maravilha! (Que foi? Não gostou? Ora bolas, some já daqui!)

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Cenas de um casamento

                         São 14h15 de uma tarde calcinante em São Luís. Ainda no portão de desembarque, uma linda morena vestida de Ceci me entrega um folder no qual leio rapidamente algo sobre as maravilhas dos Lençóis Maranhenses. Imediatamente respondo com meu melhor sorriso e um convite para jantar. Ela me vira a cara. Já passou um ano desde minha última passagem pela cidade e seria necessário muito mais que a negativa de uma indiazinha mequetrefe para minguar meu entusiasmo por chegar em casa. Ao redor, pais, namorados, agentes de viagem e, desconfio, um contrabandista, aguardam eufóricos a chegada de suas gentes. Com algum esforço cruzo o cordão da ansiedade e institivamente olho para o lado à procura daqueles que iriam me receber com ovações, faixas e uma transbordante caneca de cerveja para mitigar o calor. Não há ninguém. (O vôo não se atrasou, a viagem está marcada há mais de três meses, alguém teria cometido um atentado?). Contorno colericamente o saguão principal em busca de um olhar, um aceno, uma voz familiar e, após uma hora de tragédia pessoal, decido, enfim, admitir a ruína: eu fora esquecido no aeroporto. Busco conforto no motorista do táxi que me levaria em casa, mas um breganejo no volume máximo do Siena branco malogra a minha tentativa de consolação. Melhor se preparar para o embate furioso que se aproxima.

                        Entro no elevador tentando recordar todos os impropérios que Dona Jacira, minha vizinha da Rua da Arquietura, ensinara-me quando criança. Abro a porta sofregamente e, antes mesmo que pudesse balbuciar o xingamento de abertura, alguém me arrasta pelo braço e dispara: “Bruninho, que bom que você chegou! Me ajuda aqui com esse vestido”? Saio meio cambaleante tentando me equilibrar entre o vão de entrada e uma caixa de sapatos e só então me dou conta da cena desesperadora: na sala, uma multidão de primas, tias, amigas das primas, amigas da tias, avós, tias-avós, primas-avós, uma irmã e duas mães – proeza de um pai de santo do interior que achou que assim falicitaria as coisas – se engalfinham em busca de alfinetes e opiniões sobre os vestidos para o casamento. Ainda atônito, consigo me livrar da mulher de chapéu violeta – que só depois reconheci como minha primeira babá – e procuro guarita no escritório. Tranco a porta, dou duas voltas na chave e, enquanto recobro o fôlego, percebo alguém de costas, aparentemente hipnotizado, numa contagem frenética que, em princípio, imaginei ser uma espécie de mantra. Ao me ver, atalhou:

                       – Cinco, seis, sete…Oi, meu filho, como foi a viagem? Dez, onze, doze… acho que o Lucas ficou de lhe pegar no aeroporto depois que resolvesse o probleminha do bolo. Quinze, dezesseis, dezessete.. ele foi? Você nem imagina a loucura que está isso aqui. Vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro…o cerimonial ligou para avisar sobre o ensaio? Quarenta, quarenta e um, quarenta e dois… Ufa! Meu filho, me diga uma coisa: você acha que quarenta e cinco litros de whisque são suficientes? Neste momento, entre o choro e o riso, resolvo vivenciar a cristã doutrina do perdão e, com os pés descalços, sento no chão decidido a ajudar meu pai a organizar as garrafas.

                        A principal razão do meu retorno a São Luís neste extenuante julho é o casamento do meu irmão. Além da doçura que caracteriza ele e a noiva – e os torna um casal irresistível – ambos foram o primeiro amor na vida um do outro, passaram sete anos sem contato e, ao se reencontrarem, cederam ao enlace do destino. Noivaram e, amanhã, um beijo, entre tantos, selará esse amor e dará início a uma grande e temida festa. Isto porque sérias preocupações quanto ao comportamento da minha família têm me rendido horas de pânico.

                        Minha mãe, por exemplo, munida de receitas clandestinas, comprou cinco caixas de Valium – das quais faz uso sistemático há duas semanas – e a única frase que consegui depreender desde que cheguei foi: “Aaalguém por aíi quer uuma baaalinha?” Minha irmã entrou em colapso desde que soube que uma vizinha da noiva usará brincos iguais aos seus, e agora dedica-se apenas a estudar a “técnica Van Gogh” para arranque de orelhas. Isso sem falar no meu tio-avô, manguaceiro de carteira assinada, que há 4 meses só bebe água se resguardando para a festa. Houve a necessidade, então, de contratar alguém para ficar de olho na chave geral.

                        Para evitar tanta dor de cabeça, o noivo, que mora em São Paulo, sabiamente preferiu chegar apenas três horas antes da cerimônia. O problema é que eu, incumbido de recepcioná-lo, estou muitíssimo ocupado com a despedida de solteiro. E lamento muito não ter esquecido um disco da Maysa dentro do Siena branco. Acho que alguém mais no aeroporto vai precisar de um táxi.

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